Ineligible

A exposição coletiva Ineligible utiliza materiais arqueológicos provenientes de uma escavação realizada em São Francisco, EUA, pela empresa PaleoWest, desenvolvida no âmbito do processo de construção do Transbay Transit Center.
Identificados num vastíssimo acervo e considerados como desprovidos de interesse científico, documental ou museológico, foram disponibilizados para outros fins, tendo sido adquiridos por Doug Bailey e, posteriormente,destinados como matéria-prima para produção de trabalhos artísticos. Os autores convidados a integrar o projeto, de diferentes origens e latitudes, sob referência teórica do domínio transdisciplinar da arte/arqueologia – disarticulation, repurposing and disruption – produziram trabalhos que dispuseram ao escrutínio dos curadores do projeto (Doug Bailey e Sara Navarro), e que, de um conjunto de cinquenta e três propostas artísticas, selecionaram vinte e sete da autoria de 30 artistas, que integraram a exposição coletiva.

Valter Ventura examina a história do contrapoder, das revoltas e lutas que estão sob a superfície (ainda que também à vista na violência social e na repressão exercida pelas instituições da autoridade) na gestação da cultura norte-americana. Aqui os motivos são o pé, o sapato, a bota e a pegada. O elo é o terreno e a paisagem,embora no trabalho de Ventura, o território seja o contexto urbano estabelecido pelos imigrantes europeus no início do século XX na Califórnia. Nestas imagens, contudo, Ventura aproveita o poder da fotografia, tanto própria (dos materiais desarticulados recebidos para o projeto Ineligible) como dos arquivos fotográficos online do Oakland Museum of California, incluindo as fotografias das botas dos polícias, tiradas durante os tumultos da Quinta-feira Sangrenta da greve dos estivadores de São Francisco em 1934. Ventura recorta, imprime em papel milimétrico e justapõe estas imagens com as outras, dos materiais incorporados na repropositagem,criando uma tensão entre ordem e obediência, entre proteção e força, entre igualdade e solidariedade.

Doug Bailey (professor e arqueólogo na San Francisco State University, California)
para o catálogo Creative (un)makings: disruptions in art/archaeology. 2020

Doug Bailey: Como é que a obra que fez e que vai expor em Santo Tirso se relaciona com o tema dos Inelegíveis?

Valter Ventura: O termo "inelegível" refere-se a algo que é excluído ou separado porque está fora da norma. Acredito que seja possível compreender uma cultura, num dado momento, analisando o que se considera a “ordem natural das coisas” e o que – consequentemente – se torna marginal. Para os europeus, o continente americano era o local onde os inelegíveis eram descartados. E esses proscritos, que poderiam ter imaginado um mundo novo, permitiram a criação de um sistema comparativo e hierárquico que, em tudo copiava as preconceitos do velho continente: raças, género, religião, posses, educação, ascendência, sexualidade ou ideais. Tentei vislumbrar, na história de São Francisco (local de proveniência dos objetos que fundamentam este projeto), o papel que esse lugar desempenhou na construção da cultura norte-americana e encontrei uma longa história de contrapoder, rebelião e luta; mas simultaneamente uma assimetria drástica entre a pobreza e a riqueza de seus habitantes. O meu trabalho concentra-se (usando o poder fotográfico da indexação, listagem e comparação) em definir o que é inelegível a partir da ideia de pegada: a pegada como um documento arqueológico, político e social. Coloquei a "prova" que me foi enviada, em papel de escala milimétrica e cruzei a referência com detalhes das botas dos polícias durante a
Quinta-feira Sangrenta, tiradas das imagens do arquivo online do Oakland Museum of California. A minha vontade é criar uma tensão entre as noções de direito e justiça, entre igualdade e solidariedade, entre ordem e obediência, entre proteção e força, entre o poder eleito e o que ele considera inelegível.

Doug Bailey:
Do teu ponto de vista e da tua prática, o que entendes como as conexões entre arte e arqueologia?

Valter Ventura: Trabalhei como ajudante em vários campos arqueológicos quando era jovem. Quando contado, este detalhe da minha vida parece deixar evidente uma comparação com minha prática artística. Pode haver: encontro relações com o acto de desvelar, o esforço para cavar (remover camada por camada) ou para construir e sustentar uma narrativa a partir de objetos.
Quatro episódios verdadeiros de contemplação, previsão, acaso e provocação:
I. Um arqueólogo que não escava. Contempla a paisagem e procura entender as histórias de onde, como e quando foi ocupada: prospectou o solo, entendeu topónimos, interpretou lendas antigas e - acima de tudo – olhou.
II. Uma arqueóloga que observava silenciosamente uma peça tosca de cerâmica, tentando insistentemente desvendar a função daquela forma intacta, mas desconhecida. Ela olhava para aquele objeto tentando um ricochete para outro tempo e outro espaço.
III. Um velho arqueólogo, pouco respeitado pelos colegas, afastou-se da gruta que estava a escavar. Numa emergência, ele precisou de urinar, escondido atrás das árvores, na terra que havia sido removida e crivada. Encontrou uma placa votiva de xisto: uma das peças mais importantes daquela campanha, que tinha passado despercebida.
IV. Dois jovens arqueólogos fizeram uma apresentação do seu trabalho: uma escavação banal durante a construção de um edifício urbano. Começaram por apresentar, inventariar e estudar os artefactos da primeira camada do solo: caricas de cerveja, beatas de cigarro, preservativos... Usaram todos os métodos científicos necessários para as camadas inferiores. Sem saber se era uma piada, o público reagiu com risos. Os dois jovens arqueólogos responderam que estavam apenas a avançar o trabalho para futuros pesquisadores