Histórias

 

Histórias

“Marco ama Soraia”. Estas palavras foram escritas a canivete na casca de um plátano. Não sei quem é o Marco, mas a sua declaração perdurará para além do tempo que partilhará com a Soraia. É o medo de confrontar a nossa finitude que nos leva a registar a nossa passagem pela vida. Para que a memória das nossas histórias não desapareça connosco. Palavras e imagens. São tudo o que temos para provar que existimos alguma vez. Na Bíblia – escrita, diz Chris Marker, para salvar a humanidade do esquecimento – o mundo começa por palavras. Os japoneses aconselham precaução no seu uso: as palavras proferidas, tal como as flechas disparadas, não voltam para trás.

As nossas primeiras memórias são nebulosas, desfocadas. Mas é com essas recordações remotas que inventamos o prefácio da nossa história particular. É curioso: diz-se que quanto mais velhos somos (ou mais próximos do epílogo ficamos), melhor nos lembramos onde tudo começou, que mais focado fica o nosso passado. Entretanto, lembramos sem saber distinguir com equidade aquilo que vimos, daquilo que imaginámos, aquilo que vivemos, daquilo que nos contaram.

A série Histórias combina esta oscilação entre a realidade e a ficção. Palavras e imagens. As palavras, apesar de pertencerem a excertos concretos de infâncias, contam histórias que o tempo tornou incertas. As imagens, não apresentam aqui a sua eficácia científica, óptica, mecânica que a câmara (outra “caixa de memórias”) foi desenhada para registar. Palavras e imagens. Somos convidados a aproximar-nos para ler as primeiras mas a afastar-nos para ver as segundas. Perpetuamos este ciclo do que é lembrado e do que é esquecido. Espero que o Marco ainda ame a Soraia.

Valter Ventura
para a exposição/catálogo "Histórias"
Carla Cabanas e Margarida Gouveia
Lisboa, 2008