A Lei dos Corpos em Queda

 

A Lei dos Corpos em Queda

A fotografia nunca abandonou a sua relação histórica com a prática do retrato. A condição de se relacionar com o real de um modo científico – óptico, químico, mecanicamente fracturante – eliminou, assim se convencionou, o erro da interpretação humana. O retrato, livre então da subjectividade pela objectiva (da) câmara, cristalizaria rostos, que se tornariam objectos de mnemónica.
A imagem que se cria separa dois lados: o de cá e o de lá. O retratado e o observador (dois corpos) que, apesar dessa fronteira entre espaços, se entreolham num ricochete constante. Pressupõem, contudo, algumas regras prévias: que antes, fotógrafo e personagem (dois corpos) se encontrem no mesmo espaço e no mesmo tempo.

A “lei dos corpos em queda”, teorizada por Galileu no final do século XVI, defende que todos os objectos caem com uma acelaração constante, pois o efeito da gravidade é equivalente para todos os corpos que se encontram à mesma altura. A sua lei contraria o nosso senso comum: uma bola de papel, não deveria caír à mesma velocidade que uma pedra. Não faz sentido, mas acontece. Desde Aristóteles (séc. IV a.C.) se acreditava que um peso com o dobro de outro, demoraria metade do tempo a aterrar. Com Galileu, o conhecimento advém da experimentação.

Em «histórias sobre mim», Carla Cabanas revisita temas que lhe são queridos: a memória e o retrato. Mas em vez de utilizar um método aristotélico sobre estes assuntos, torna-se experimental. Nesse encontro com o retratado a câmara torna-se num gravador que regista toda a resposta ao pedido “conta uma história sobre mim”. A “pin hole” não utiliza lentes, não tem componentes mecânicos, nem pode gerar imagens a partir de curtas fracturas de tempo. No final não restam rostos reconhecíveis. Não é um trabalho para que perdure a memória do retratado, mas para perscrutar o que perdura na sua memória sobre a artista. Então o retrato transforma-se em auto-retrato: uma imagem que dentro de si não tem cá, nem lá.

 

Sobre a narrativa partilhada nada saberemos. Fica o resultado do encontro de dois corpos numa queda suspensa, num espaço e num tempo, experimentado em simultâneo, durante a duração de uma história. E tudo aterra ao mesmo tempo.

Valter Ventura
para a exposição "Histórias sobre mim"
Carla Cabanas
Lisboa, 2010