Carpe Diem

O meu atelier no Palácio Pombal é baixinho: não dá para saltar lá dentro sem bater com a cabeça no tecto.
Tem uma janela para a Rua d' O Século que quando está aberta deixa entrar uma brisa que levanta o pó do estuque que cobre os frescos escondidos e da argamassa solta dos azulejos roubados. Mesmo quando a janela está fechada oiço todas as pessoas a passar lá fora em todas as línguas que conheço e desconheço. Há quem pare encostado à janela a falar ao telemóvel, porque visto de fora não parece ter alguém cá dentro.
A Luisa tem um atelier por baixo do meu: tento não fazer barulho para não a incomodar mais do que aqueles que param a falar encostados à janela.
O atelier da Carla fica ao lado e cheira a térmitas. É o que ela diz. A mim cheira-me ao produto que ela usou para as tentar matar.

Seria impossível que tudo isto não ficasse impresso em cada ideia que tenho nesse espaço. Aliás, todo o palácio é uma sobreposição de sucessivas ideias e por isso o meu atelier baixinho não é uma sala; é um laboratório.

Valter Ventura
para o Serviço Educativo do Carpe Diem
Carpe Diem - Arte e Pesquisa. Palácio Pombal
Lisboa, 2014