Toda a Linha Recta

Toda a Linha Recta é um Arco de um Círculo Infinito

O trabalho de Valter Ventura centra-se numa procura pelo que constitui a condição humana. Uma procura por aquilo que enforma a sua expressão primeira e que se enuncia repetidamente em várias épocas e em várias culturas, mas também uma procura por aquilo que em cada período e em cada lugar responde a uma especificidade cultural ou social, própria a uma forma de olhar e entender o mundo.
A sua visão é em parte taxionómica, pois descreve, analisa e classifica as acções e os objectos, mas também poética, pois fá-lo especulativamente sobre algo que não detém uma natureza meramente científica.
Assim, quando o autor recolhe e dispõe o que ausculta está a propor um outro olhar. Um olhar que questiona a natureza do homem e a referência museológica, enunciando a incompletude da parte para afirmar a plenitude do todo.

I
Valter Ventura apresenta uma série de imagens onde separa a representação da matéria daquilo que não tem corpo palpável.
Numa das paredes exibe-se um conjunto de fotografias de um esqueleto humano, em que a sua organização, distante de uma vontade que explica, responde a uma lógica de inventário e a uma vontade que classifica. O esqueleto aparece desmembrado e os ossos que o compõem autonomizam-se em folhas separadas. O papel acusa ainda as dobras que permitem reconhecê-lo como parte de um grupo que se arruma e arquiva, ou que se utiliza para efeito de estudo e consulta.
No canto oposto dispõe-se um registo de vídeo que nos documenta a elaboração de um fogo arcaico. Filmado em estúdio, a atenção foca-se sobre os instrumentos e o processo utilizado para a criação da chama.
Ambos se complementam num ciclo (círculo) de morte e nascimento, de coisa estática e em movimento, de matéria e energia que se repete num acto de procura. Uma procura conjunta entre entendimento e encantamento que, desde sempre, articula aquilo que nos compõe.

II
A recolha de objetos com um valor simbólico e/ou documental, assim como a vontade de preservar a sua memória é, desde sempre, uma necessidade premente. O Museu, que já desde a Antiguidade Clássica surge como casa do conhecimento, espelha, no decurso do tempo, a forma como entendemos aquilo que nos rodeia.
Valter Ventura intervém num espaço cujo discurso museológico não problematiza a exposição do homem para além da sua categorização, porém, aceitando o conhecimento como algo em movimento, como algo que advém da informação que se cruza ao longo do tempo, o autor revê o olhar sobre os objectos e a sua comunicação. Na verdade, aceitando-os como um troço de um largo caminho, o seu trabalho reforça a necessidade de uma perspectiva mais complexa e abrangente que reinterpreta a origem do nosso olhar.
O que Valter Ventura então nos propõe é algo que indaga a natureza humana e o entendimento que dela temos. Uma natureza que não se restringe à segmentação da parte, expressa na simples apresentação do objecto, ou ao linear entendimento do facto, mas à articulação de um todo, expresso na problematização da sua comunicação e na dimensão poética que lhe está associada.
Algo que reside entre o que permanece e o que se ausenta, entre o que perdura e o que é momentâneo, ou entre o corpo e o espírito, numa existência que se perpetua, troço a troço, num caminho sem fim. Ou fazendo uso da ideia de J.L. Borges, como todo o trilho, ou percurso que é parte de uma realidade maior, ou como toda a linha recta que é arco de um círculo infinito.

Sérgio Fazenda Rodrigues (curador independente)
para a exposição «Toda a Linha Recta é um Arco de um Círculo Infinito»
Museu Geológico
Lisboa, 2016