Deep Down Above the Sea

Viagens Imóveis: não ser, não estar e outras coincidências de andar perdido ou à deriva.

1ª Estação.
Thomas More publicou, em 1516, um livro escrito em latim: Utopia – Um livro pequeno e verdadeiro, benéfico e agradável, sobre como as coisas devem ser na nova ilha Utopia.
Os leitores dividem-se: uns sondam o desejo do autor em ver este “não-lugar” (u-topos) como uma vontade de mudança, que se poderia materializar no Novo Mundo. Outros sentem a sua resignação perante a impossiblidade de algum dia se poder viver como descrito naquela sociedade exemplar.
É importante que Utopia seja uma ilha. Que esteja cercada de água e protegida pelo espaço e pelo tempo, com cartografia incerta. Mas também é importante que quem nos acompanha na viagem a um sítio que não existe seja um viajante chamado Raphael Hythlodaeus, cujo o apelido – em grego – significa aproximadamente “perito no absurdo”.

2ª Estação.
A Odisseia canta-nos a trágica viagem de Ulisses entre Tróia e a ilha de Ítaca: a deriva de um marinheiro atormentado. Quando conhece o ciclope Polifemo, o gigante pergunta-lhe o nome e Ulisses responde “Utis”, que em grego significa “Ninguém”.
Nas Vinte Mil Léguas Submarinas: viagem ao mundo submarino, publicado em 1870, Júlio Verne conta-nos a trágica viagem do capitão Nemo: a deriva de um marinheiro atormentado. Em latim, “Nemo” significa “Ninguém”.

3ª Estação.
Ouedineniia 77º 29' N | 82º 30' E. Bjørnøya 74º 26 N | 19º 03' E. Ostrov Rudolfa 81º 46' N | 58º 56' E. Saint Kilda 57º 49' N | 8º 35' W. Ilha da Trindade 20º 30' S | 29º 20' W. Bouvetøya 54º 25' S | 3º 21' E. Southern Thule 59º 27' S | 27º 18' W. Île Saint-Paul 38º 43' S | 77º 31' E. Île de la Possession 46º 24' S | 51º 45' E. Nouvelle-Amsterdam 37º 50' S | 77º 33' E. Tromelin 15º 53' S | 54º 31' E. Howland Island 0º 48' N | 176º 37' W. Macquarie Island 54º 38' S | 158º 52' E. Fangataufa 22º 15' S | 138º 45' W. Araido-tō 50º 51' N | 155º 33' E. Bokak 14º 38' N | 169º 0' E. Isle Penantipode 49º 41' S | 178º 46' E. Campbell Island 52º 32' S | 169º 9' E. Pitcairn 25º 3' S | 130º 6' W. Hawadax 51º 57' N | 179º 38' E. Île Clipperton 10º 18' N | 109º 13' W. Pagan 18º 7' N | 145º 46' E. Isla del Coco 5º 32' N | 87º 4' W. Deception Island 62º 57' S | 60º 38' W. Franklin Island 76º 5' S | 168º 19' E. Peter I Øy 68º 53' S | 90º 34' W
SCHALANSKY, Judith, Atlas des Îles Abandonnées, Paris, Flammarion, 2010.

4ª Estação.
Livingstone enviou quarenta e quatro cartas, tendo apenas uma chegado a Zanzibar. Nesta, despedia-se de Horace Waller com as palavras “Tenho dúvidas se viverei para o rever”.
Em 1869, Stanley foi enviado numa expedição para o procurar: encontrou-o perto das margens do Lago Tanganyika – em Ujiji – em Novembro de 1871.
O diálogo que se segue nunca aconteceu, mas continuamos a querer crer nele:
– Doutor Livingstone, presumo?
– Sim. Sinto-me feliz por estar aqui para o receber.
Livingstone esteve desaparecido durante seis anos, na tentativa de cruzar o continente africano entre as cidades do Cabo e do Cairo.

5ª Estação
Por mais que tente, não me recordo do nome dele. Isso envergonha-me: que ele não tenha nome agora. Utis, Nemo, Ninguém. Acordou e acordou-me a meio da noite para dizer “acho que não vou voltar a ver o mar”. Era sargento da Marinha e enquanto o enfermeiro revia tubos, agulhas, pressões, gotas e doses; ele falava de ondas, correntes, tempestades, milhas e nós, intervalando termos e palavras que ainda hoje não conheço, enquanto submergia.

6ª Estação.
Fernand Braudel alistou-se no exército francês e foi preso pelos alemães, no início da IIª Guerra Mundial. Entre 1940 e 1942 esteve detido em Mainz e depois em Lübeck, até 1945.
Nesses últimos três anos, escreveu O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico, privado de livros mas sustentado pela imensa biblioteca que transportava na sua memória. Para os historiadores contemporâneos esta continua a ser uma obra de referência, para entender o espaço e o tempo como agentes da mudança. A “longa duração” como lhe chamava.
Braudel tinha o corpo preso a 1318 km (em linha recta) do Mediterrâneo. Mas via o Mar com clareza: as ilhas e os barcos que as ligam, a transumância e as oliveiras, os desertos nómadas e as montanhas sedentárias, as cidades em ruínas e os peixes, as placas tectónicas e as coroações, as migrações e os afogamentos.

Valter Ventura
para a exposição "Deep Down Above the Sea"
Duarte Amaral Netto, João Paulo Serafim, Francisco Mendes Moreira e Paulo Arraiano
Lisboa, 2019