A Última Dúvida de Joseph Grand

"Por uma bela manhã de Maio, uma esbelta amazona, montada numa sumptuosa égua alazã, percorria as áreas floridas do Bosque de Bolonha". Durante meses Joseph Grand trabalhou esta frase na tentativa de a aperfeiçoar. Todas as noites substituía uma palavra, trocava um verbo, encontrava um adjectivo, mudava a ordem dos sintagmas, procurava uma métrica, desistia, recomeçava, riscava e reescrevia. Esta foi a sua última versão: não estava suficientemente boa - na sua opinião - para ser a primeira frase do seu primeiro livro. Nunca estaria. Joseph Grand morreu de peste em Orão, na Argélia, rodeado pelos seus amigos. Continuei o seu trabalho: agora sou eu que substitui, troco, encontro, mudo, procuro, desisto, recomeço, risco e reescrevo. Tento dissecar cada palavra, até a entender profundamente; até não restarem quaisquer dúvidas. Comecei um trabalho diário de reflexão. Para entender cada componente desta frase tive de a analisar individualmente. Percebi que me tinha envolvido num quebra-cabeças complexo: entre a forma, o ritmo, o conteúdo, a métrica, os significados... Sempre que aparento chegar a um lado, afasto-me de outro. Entretanto, fui criando e compilando um arquivo para tentar a aproximação à essência de cada parte do texto. Fui ao Bosque de Bolonha em Maio. Fotografei-o, recolhi terra, ar, água e minerais para o poder ver, tocar e cheirar. Tento entender a anatomia equestre e o som ritmado do trote das éguas. Compilo inúmeras imagens de mulheres guerreiras. Volto a sentar-me para reescrever a frase , apercebendo-me apenas que a dúvida ainda resiste.